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A dança no combate à violência doméstica

'Eu vivi essa cena', do Coletivo Flores, está disponível no YouTube; obra é apoiada pelo edital 'Cultura Presente nas Redes', da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio

A arte, como forma de expressão humana, é constantemente usada para levantar pautas políticas. Uma delas, bem séria, é apresentada pelo Coletivo Flores, companhia de dança que funciona no CIEMH2, em Macaé. O espetáculo virtual "Eu vivi essa cena", sob direção de Taís Vieira, aborda a temática da violência doméstica contra a mulher com a maestria dos movimentos do casal Thiago e Dani Morethe. Exposta no YouTube, a apresentação é uma das 61 propostas do Norte Fluminense apoiadas pelo edital "Cultura Presente nas Redes", da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (SECEC-RJ).

"Ficou legal porque conseguimos abordar duas coisas da violência: a física, que fica mais latente que ela acontece, e a psicológica, que a gente acha besteira, mimimi, o que não é. A violência psicológica é presente em quase todas as instâncias. Você passa por isso profissionalmente e não percebe que está passando, você passa por isso no ambiente familiar e acha que é normal. A violência psicológica deixa marcas profundas iguais ou até mais do que a física. A violência física é dolorida porque nós sentimos vergonha dos outros, que estão vendo o que estamos passando. Com a violência psicológica, nós nos sentimos culpadas, nos sentimos confusas, pensando se não estamos aumentando a história. Pensamos que fulano está apenas nervoso quando fala algo. E não é assim. Quisemos colocar uma lupa sobre isso. E percebemos que essa violência está aumentando muito durante a pandemia", diz a diretora Taís Vieira.


O espetáculo virtual é mais uma obra do Coletivo Flores que foi gerada a partir da montagem de "Penha: um ensaio sobre a violência doméstica". Este, que tem duração de aproximadamente uma hora, já havia ganhado uma versão de 15 minutos, chamada "Maria", para rodar em espaços alternativos. Quando "Penha" começou a circular, veio a pandemia. Por isso, a obra só ficou em Macaé. Mais curta, "Maria" chegou a ser apresentada no Rio.


"Com tudo parado, devido à pandemia, tínhamos muito objeto de estudo conosco, uma narrativa, muito depoimento, muita entrevista, muita cena que tínhamos armazenado para discutir. Para o grupo não desanimar, dividi o coletivo em subgrupos e comecei a trabalhar alguns temas em particular com eles. Como o Thiago e a Dani são casados e estão na mesma casa, eu propus que eles pegassem esses estudos e montassem um espetáculo virtual. Eles, com maestria, começaram a montar a iluminação com luz de celular, o cenário com tapete que tinham em casa. Usaram uma saia que estava no espetáculo ('Penha'). Eu fiquei bastante surpresa com o que eles conseguiram fazer. O nome surgiu de um depoimento de uma mulher na internet. Ela vê um filme sobre violência contra a mulher e diz: 'Eu vivi essa cena'. Isso ficou gravado na minha cabeça porque várias vezes eu vi mulheres falarem isso", narra Taís


'Conflito começa no agressor'

No início da apresentação, Thiago Morethe faz uma performance solo, com movimentos que indicam a aflição. "Sempre achamos que a violência está somente em quem é agredido. As pessoas que agridem às vezes também passaram por violência e não se deram conta disso. Ali, quisemos trabalhar com essa dualidade do cara que pode ter passado por violência e ter se tornado violento, ou do cara que sente aflição em fazer violência e fica angustiado. A outra visão que é possível é de como o cara vai ficando nervoso com coisas pessoais dele e descarrega numa mulher. Temos algumas leituras que podem ser feitas. Ele aparece sozinho porque o conflito começa no agressor, depois ele reflete na pessoa agredida, na mulher", explica Taís.

Thiago destaca a sua atuação em um projeto do tipo. "É importante nós, homens, tocarmos na temática e combatermos isso que acontece. É difícil ver homem falar disso. Os números de violência contra a mulher só vem crescendo na pandemia. Temos que tocar nessa tecla o tempo inteiro. Seja com dança, seja com reportagens, temos que frisar isso", afirma o dançarino.


Em outro momento da obra, Dani surge de dentro de uma saia, passa batom e se ergue, num movimento de libertação. "Eu gosto de fazer dança como se estivesse fazendo um filme. Então, eu vou construindo uma narrativa nos meus trabalhos coreográficos. O que mais temos de representatividade da mulher, como objeto cênico, é batom, saia, bolsa. A questão da saia é realmente onde ela se esconde. O batom é para ela se maquiar para esconder hematoma, para disfarçar um olhar que está triste. Quando ela está embaixo da saia, ela está se escondendo, ou aprisionada. Quando ela está saindo, está pedindo socorro, algo que você tenta, volta. O trabalho tem um ciclo de repetição, porque a violência tem um ciclo de repetição. Fizemos isso também com movimento, pois a violência acontece e volta a acontecer. Neste caso, não finalizamos, deixamos aberto. Não tem fim. Não sabemos se esse ciclo vai continuar, se essa mulher morreu, se eles se separaram. Não temos uma resposta. E é proposital não ter", observa a diretora.

Participação especial

Quem assiste ao brilhante trabalho do Coletivo Flores consegue enxergar apenas as atuações de Dani e Thiago, mas há um trio ali. Na metade das gravações, Dani descobriu que está grávida. Por isso, precisou suavizar os movimentos a partir dali. "Foi mágico, pois nós nem esperávamos. Estávamos no processo de criação. Havia um prazo para fazer uma prévia do trabalho. Nesse meio tempo, eu descobri que estou grávida. Por isso, havia restrições. Eu não poderia mais me jogar no chão, fazer coisa que eu já havia feito. Nós já havíamos gravado a primeira parte. Troca de roupa, tira, puxa, corre e faz as coisas. Há movimentações mais intensas. Depois que descobri, fizemos algumas coisas mais com os braços, mais de expressão, algo não muito brusco para não afetar o bebê. É um menino, vai se chamar Matias. Ele já chega ao mundo dançando", afirma a dançarina.

Reeducação

Como solução para a questão da violência contra a mulher, Taís acredita na reeducação para que haja uma transformação cultural. "Muitos homens querem ser violentos, não veem um erro nisso. Acham que isso é natural, que a mulher é um domínio. Esses dificilmente conseguirão ser modificados. Outros homens não entendem que estão sendo violentos. Esses, talvez, se passarem por um tratamento, tiverem oportunidade de diálogo, de escuta, talvez possam deixar de ser violentos. Já nós, mulheres, somos culturalmente criadas para ser do lar. Aprendemos que o homem tem a responsabilidade de gerir financeiramente a casa e que a mulher tem responsabilidade de cuidar da casa. E não é isso. A responsabilidade de cuidar da casa é de todos. Essa é uma questão que dá muita briga. Numa geração em que todos querem trabalhar fora, temos mais chances de ser amorosos, mais amigáveis, mas não fomos educados para isso. Tanto o homem, quanto a mulher podem ser tratados para esse ciclo não continuar", diz a diretora, que pondera sobre a dificuldade de muitas mulheres saírem deste ciclo:


"Uma coisa é a mulher de classe média alta, outra coisa é a mulher de classe baixa, que não tem como prover os filhos, não tem como se prover, não tem para onde ir. Ela não sai desse ciclo porque não tem como fazer. A vida já é violenta por si só com ela. Então, é muito difícil a gente falar que ela está ali porque quer. Ela não está ali porque quer. Ela está ali porque não tem para onde ir. Por outro lado, há as mulheres que amam demais. Estas acreditam que, após o ciclo de violência, haverá o ciclo de lua de mel. As mulheres mais esclarecidas conseguem, num determinado tempo, denunciar e sair desse ciclo, mas não é fácil."

Proteção

Já Dani Morethe chama a atenção para a necessidade de o poder público formular políticas de proteção à mulher e de educação sobre o tema. "A violência contra a mulher está enraizada durante muito tempo nos relacionamentos, tanto entre pai e mãe, quanto entre irmão e irmã, entre amigos na escola. São situações que infelizmente só crescem, de acordo com a vivência, com a falta de respeito e de empatia com o próximo. O poder público poderia ter um posicionamento, oferecer mais políticas públicas na proteção da mulher e na educação escolar, informar quais são as situações em que se devem ficar ligados. Nós, mulheres, sempre estamos pesquisando alguma coisa para ajudar outras mulheres a se prevenir. Há códigos. Em restaurantes e em outros locais públicos, conseguimos ter esse código feminino para uma cuidar da outra, e isso não é exposto para não ter alarde, por conta da segurança da mulher. Não deveria ser só assim. Cada um deveria ter seu espaço. Num relacionamento, o homem deveria ter a abertura e, também, um limite ao pertencimento de outra pessoa. Ter companheirismo ao invés de ter a mulher como uma propriedade".

Taís Vieira também cobra campanhas de conscientização do poder público para combater esse problema. "Acontece o mesmo em relação à educação sexual das crianças, sobre os pontos amarelo, verde e vermelho do corpo. É isso mesmo, temos que fazer. A única forma de nós nos reeducarmos é essa. É igual ao cinto de segurança. Ninguém usava, mas agora já entra no carro e coloca, pois se acostumou a fazer isso. Todo mundo fumava em ambiente fechado, mas agora se acostumou a não fazer mais isso. Precisamos fazer o mesmo sobre a violência contra a mulher", diz a diretora, que, por outro lado, lamenta que o momento político atual possa impedir que essas medidas sejam tomadas. "Temos um representante no poder que é machista e dificilmente conseguiremos educar um povo se nosso representante maior levanta a bandeira contrária, libera o armamento, faz uma série de coisas contra", afirma Taís.



Fonte: https://www.culturaliajornalismo.com/post/a-dan%C3%A7a-no-combate-%C3%A0-viol%C3%AAncia-dom%C3%A9stica

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